Walala - Argumento
por Perseu Azul
Um pequeno drone de aspecto simpático sobrevoa uma plantação de soja que se estende ao infinito. Em seu caminho, ele passa por frotas de enormes colheitadeiras e tratores autônomos.
Então, ele se aproxima da única mancha de floresta no meio da lavoura. Na margem dessa mata, alguns tratores conduzem uma operação de poda e controle de crescimento das árvores. O drone pára para observar os tratores em ação.
No coração da mata, um morro se ergue e verte um riacho. No alto desse morro, uma mulher de compleição atlética e pele vermelha observa os tratores de poda através de uma luneta. Ela é Ticunë, 35 anos. Ticunë também vê o drone, que deixa os tratores e avança mata adentro, seguindo o curso do riacho.
Próximo à queda d’água, o drone avista a pequena Walala, 5 anos, filha de Ticunë, brincando na margem do riacho. A menina corre, atira pedras, sobe em uma árvore aqui e desce pelo tronco de outra ali, demonstrando uma agilidade surpreendente. O pequeno drone se junta a ela na brincadeira. Walala celebra sua chegada do amigo, pinta o próprio rosto com barro e depois faz a mesma pintura no drone.
Uma trilha de formigas chama sua atenção e a conduz até uma pedra. Curiosa, Walala se esforça para removê-la. A pedra é pesada, mas ela é engenhosa e usa um galho como alavanca. Walala encontra algo estranho — um objeto colorido.
As formigas desaparecem por uma rachadura nesse objeto, que está parcialmente enterrado. Walala escava ao redor dele até conseguir retirá-lo do solo. É um barquinho! Uma caravela. Walala descola o mastro do brinquedo e, com barro, o cola sobre o amistoso drone, que faz piruetas no ar, divertindo a menina, até que passos vindos da mata chamam sua atenção. Walala rapidamente enterra a caravela em um monte de lama.
Do alto do morro, Ticunë ainda observa os tratores realizando o controle de crescimento da floresta. Ela faz um zoom e vemos que as máquinas estão se aproximando de uma de suas armadilhas; mais alguns metros e…
Voltamos para a beira do riacho, o ponto de vista do drone nos mostra o rosto de Walala, que se volta para a mata ao ouvir uma explosão, provavelmente causada pela armadilha de Ticunë. Dois segundos depois, um sinal de alerta preenche a tela do drone.
Mudamos do ambiente da floresta para dentro de uma sala de controle, onde telas emitem o mesmo sinal de alerta! Amine, um rapaz de feições árabes, 30 anos, usando o uniforme da Fazenda Modelo, sentado em sua cadeira de rodas, retira seus óculos de pilotagem e larga apressadamente o joystick de seu videogame.
Ele gira com sua cadeira pela sala e vemos que as paredes do seu quarto simples estão repletas de fotos de Walala, Ticunë e uma outra indígena mais velha. Antes que ele possa fazer qualquer coisa a respeito do alerta, o seu telefone recebe uma chamada de vídeo, o nome indica: Soroya. Visivelmente nervoso, ele respira fundo e se prepara para atender.
Nanã surge do meio da mata e se aproxima de Walala, à beira do riacho. Nanã é uma anciã pequena porém robusta, que ostenta uma postura altiva e ereta, mesmo apoiada em sua borduna. Ela se aproxima silenciosamente, levanta sua borduna e acerta o drone distraído, como quem mata uma mosca.
Walala se vira, fingindo não ter notado a avó. Nanã olha as peças do drone e nota, com estranheza, o pequeno mastro espatifado no chão. Solenemente, ela avisa à Walala, sua
neta, que está na hora do ritual da noite. Walala pede mais uns minutinhos para brincar, mas Nanã nem precisa responder, faz meia volta e entra na mata. Walala promete que só vai se lavar e segue pra casa logo em seguida.
Ela espera a avó se afastar e desenterra a caravela, lavando-a com esmero no riacho, até que é surpreendida pela chegada de Ticunë, que lhe dá um susto e cai na risada. Walala e a mãe têm uma relação repleta de amor e amizade. Walala lhe apresenta o novo brinquedo. Ticunë sente algo ruim emanando daquele objeto e pede para a filha jogar o barquinho fora, mas Walala insiste em ficar com ele e acaba convencendo a mãe. Antes de seguirem juntas para casa, Walala recolhe as peças do drone e o mastro da caravela.
Avó, mãe e filha se reúnem em torno da fogueira. Walala está tentando usar partes da caravela para remendar o drone que a avó quebrou. Nanã toma os brinquedos de sua mão e lhe entrega um chocalho. Depois, ela pede para Ticunë pegar o tambor, mas Ticunë diz que não vai poder participar do ritual pois tem que recolher as peças do trator abatido, antes que as máquinas venham limpar os destroços.
Nanã, não satisfeita com a situação, pede para Ticunë ir após o ritual. Walala quer ir com a mãe. Ticunë responde que ela ainda não tem idade para sair da floresta, depois pede licença à Nanã e sai. Nanã serve comida para Walala, mas a garota diz não ter fome, pega seus brinquedos e se retira, deixando a avó contrariada e sozinha ao pé da fogueira.
O dia está quase raiando na margem da floresta quando Ticunë sai de dentro do ventre do trator, toda suja de óleo, carregando uma bateria imensa - o coração do monstro. Ao longe, ela observa a aproximação de outras máquinas com seus faróis acesos. Ticunë junta as peças que lhe interessam em uma caixa, coloca a caixa em cima de sua moto voadora - que mistura peças de drones, tratores e recursos da floresta - e retorna para a mata.
Ticunë guarda as peças em sua oficina, que fica dentro de uma casa de palha num canto da aldeia. O lugar é repleto de partes mecânicas, baterias, cipós, madeiras e fios elétricos, tudo bem organizado. Ao sair da oficina, ela se depara com Nanã, que tem a caravela nas mãos. O olhar da senhora diz tudo e ela não está contente.
Ticunë pede à mãe que não seja tão dura com Walala, afinal, que mal pode fazer um brinquedo que deve ter ficado enterrado na floresta por tantos anos? Nanã gostaria que Ticunë tivesse razão, mas Walala está doente e acredita que foi o inocente brinquedo que lhe trouxe esse mal. Walala nunca saiu da floresta, por isso nunca desenvolveu um sistema imunológico como o de Nanã e Ticunë.
Dentro da oca, a pequena caravela queima na fogueira, junto com o drone. Deitada em sua rede, Walala tosse e sua, ardendo em febre. Ticunë se preocupa. Nanã trata a neta com ervas e cânticos.
Na margem da floresta, um novo drone observador, como o anterior, com exceção das pinturas feitas por Walala, acompanha as máquinas que terminam a limpeza dos destroços do trator. Então este drone voa até a oca, mas a encontra fechada. Do lado de fora, ele pode ouvir os cânticos sendo entoados. O tempo avança; Ticunë, vez ou outra, sai da oca e retorna com alimentos e ervas.
Do lado de dentro, Walala está cada vez pior. Ticunë decide ir em busca de remédio. Nanã a relembra o quão perigoso é deixar a floresta. Ticunë sabe se cuidar mas Nanã teme que os tratores derrubem a floresta enquanto ela estiver ausente. A filha afirma que vai voltar rápido e que os tratores nem vão ficar sabendo que ela saiu.
Nanã aponta que a cidade mais próxima fica a dois dias de distância, contudo, Ticunë conhece um lugar muito mais próximo, onde pode encontrar remédios. Nanã sabe do que a filha está falando e sente receio, ela pede para Ticunë ter paciência e fé nos tratamentos da
floresta. Porém, Ticunë sabe que aquela é uma doença dos brancos e, por isso, só pode ser curada com remédio deles.
Ticunë, em sua oficina, prepara sua moto. Ela coloca a bateria do trator e testa os propulsores - muito mais rápidos! Espreita por uma fresta na parede de palha e vê o novo drone observador rodeando a oca. Com uma flechada certeira, Ticunë destrói o drone.
Na margem da floresta, Nanã realiza um gesto ritualístico que a veremos repetir sempre que precisar de força: com a borduna na horizontal diante do rosto, ela toca o centro da madeira em sua testa e, em seguida, toca a borduna no chão.
Ticunë tem Walala nos braços, ela dá um beijo na filha e a entrega para a avó. A menina abre os olhos ao ouvir a mãe se despedir e pede para que ela não vá. Ticunë, com carinho, promete que voltará logo. Nanã, mais uma vez, tenta convencer a filha a não sair da floresta, temendo que os tratores avancem sobre as árvores, como já fizeram no passado. Mesmo assim, Ticunë permanece decidida.
Ela monta em sua moto voadora e dispara, cruzando o vasto deserto de soja a toda velocidade. Nanã e Walala a observam desaparecer no horizonte. Com o olhar determinado, indo sempre em direção ao pôr do sol, traçando praticamente uma linha reta, Ticunë atravessa a imensa plantação. No caminho, ela dribla fileiras de enormes colheitadeiras e frotas de drones que pulverizam veneno sobre os campos.
À medida que a noite cai, Ticunë chega ao seu primeiro ponto de parada: uma formação rochosa que emerge do meio da plantação. São paredes estreitas e altas de pedra vermelha, repletas de cavidades, assemelhando-se a uma cidade pré-histórica. Em uma dessas cavidades, cujas paredes estão cobertas por pinturas rupestres, Ticunë encontra uma pequena fonte de água. Ela sacia sua sede, enche seu cantil e segue sua jornada.
Quando o sol está prestes a nascer, Ticunë chega ao que parece ser uma floresta, contudo, há algo estranho naquele lugar, pois todas as suas árvores são idênticas e perfeitamente alinhadas. Ela pára a moto à margem dessa floresta artificial e entra. As enormes coníferas se erguem até quase tocar o céu. No alto, robôs lenhadores trabalham incessantemente, extraindo galhos e folhas. Ticunë, conhecendo o terreno, consegue passar despercebida.
No centro dessa floresta artificial repousa um imenso casarão colonial, a sede da Fazenda Modelo. A penumbra ainda envolve suas janelas. Cautelosa, Ticunë se esgueira pela propriedade, procurando uma brecha na estrutura. Ela finalmente encontra uma janela frágil e consegue entrar.
Dentro do casarão, num quarto moderno e inteiramente branco, Soroya — uma mulher alta, aparentando cerca de 50 anos — desperta com um alarme de segurança e se levanta de sua câmara avançada de resfriamento, visivelmente aflita. Com pressa, veste um roupão e pega uma espingarda de caça que repousa ao lado de sua cama futurística.
Enquanto isso, Ticunë se move silenciosamente pelos corredores da casa. Ela pára, parece ter encontrado o que veio buscar. Em uma sala repleta de medicamentos e equipamentos de cuidados médicos, um robô assistente detecta sua presença e, em um tom gentil, pergunta: "Em que posso ajudar?"
Com uma lâmina, Ticunë desativa o robô sem fazer barulho. No entanto, o alarme da casa alerta Soroya para a presença invasora na enfermaria. Sem saber que já foi descoberta, Ticunë continua sua busca e encontra o remédio. Quando se prepara para sair, dá de cara com Soroya — Um tiro!
Nanã, na floresta, sente uma pontada no peito e cai, pressentindo que algo aconteceu com sua filha. Walala, na rede, está em um estado ainda mais grave, com sua respiração quase
imperceptível. Nanã sai da oca e encontra o drone observador. Ela o ignora e vai até a margem da floresta, ansiosa e preocupada.
De volta à sede da fazenda, Soroya está aflita. Ticunë, em estado crítico, deitada em uma maca na enfermaria, tenta se comunicar, mas Soroya não fala a sua língua, e os aplicativos de tradução são inúteis, pois não conhecem o léxico de Ticunë.
Amine chega à mansão em um drone de transporte contendo a marca da Fazenda Modelo. Ele entra e, notavelmente nervoso, vai ao encontro de Soroya. Ela está furiosa, pois Amine passa o dia todo viciado no seu jogo de observação dos selvagens, ao invés de cuidar dos tratores da fazenda, mas, mesmo assim, não conseguiu avisá-la quando Ticunë saiu da floresta. Por isso, ela atribui a ele a culpa do acidente com Ticunë.
Amine explica que Ticunë destruiu seu drone logo antes de sair, por isso ele não tinha como saber. A situação de Ticunë piora. Amine traduz o que ela está tentando dizer e descobre o estado de Walala. A menina precisa de ajuda urgente. Contudo, Soroya não permitirá que ele auxilie Walala até que resolvam a situação com Ticunë. Ele insiste em chamar um médico para tentar salvar a vida de Ticunë, mas Soroya o impede, pois sabe que ninguém vai acreditar que foi um acidente.
O próprio Amine questiona essa versão, já que Soroya sempre quis que os indígenas saíssem da floresta para expandir suas plantação de soja. Soroya responde friamente que, se quisesse eliminar Ticunë e sua família, já teria feito isso há muito tempo. Contudo agora que o pior já está feito, e que ninguém vai acreditar na sua versão, ela vai aproveitar que a floresta está indefesa e derrubar tudo.
Assustado com essa possibilidade, Amine pensa rápido e barganha seu silêncio com Soroya. Ele tem um plano que promete fazer a floresta dar mais lucro para a fazenda do que se fosse derrubada para cultivar mais alguns hectares de soja. Soroya quer entender como ele pretende fazer isso. Ele diz que ela vai precisar confiar nele, mas garante lucro exorbitante e que nunca mais os indígenas vão conseguir escapar de sua vigilância. Cúmplices, eles firmam um pacto.
Na aldeia, o drone de Amine sobrevoa a oca, aproximando-se da porta de palha, que está entreaberta. O drone se aproxima de Walala, que permanece deitada em sua rede. Nanã retorna para a oca e se surpreende com a invasão. Ela tenta combater o drone com sua borduna, mas Amine pilota com habilidade e se esquiva.
Nanã já não tem forças para continuar lutando. O drone se aproxima novamente de Walala, que sente o vento de suas hélices e abre os olhos. Então vemos o ponto de vista do drone, Walala sorri ao ver o velho amigo. O drone, subitamente, asperge algo no rosto dela. Nanã, furiosa, atinge o drone de raspão com uma flecha. Amine foge pelo mesmo caminho que entrou. Nanã o persegue e, ao sair da oca, se depara com dezenas de drones iguais ao de Amine, porém sem a pintura que o distingue. Ela para, assustada com a cena, e retorna para dentro de casa.
Nanã vai até a neta, esperando o pior. No entanto, para sua surpresa, Walala está ilesa e voltou a dormir. A pequena solta um suspiro e esboça um leve sorriso. No dia seguinte, Walala, cheia de energia, acorda Nanã em sua rede. Walala está completamente curada e pergunta pela mãe. Nanã, emocionada, mas com um toque de tristeza, diz à neta que Ticunë saiu mas deve retornar em breve.
O tempo avança. Walala cresce na expectativa do dia em que sua mãe retornará. Ela passa o tempo caçando drones e criando artefatos com suas peças. O único drone que ela poupa é o drone de Amine, que está sempre com uma pintura nova feita por ela. Ele se torna seu companheiro de caçada, como um pet que a segue para todo lugar, inclusive para dentro da sua oficina, onde nem a avó pode entrar.
Com o passar dos anos, o interesse de Walala pelas tradições da avó diminui, enquanto sua habilidade como caçadora e artesã se intensifica. Ela se torna uma jovem habilidosa, fabricando artefatos que a ajudam tanto a capturar drones quanto a observar o horizonte em busca da mãe, sempre mantendo a esperança de que Ticunë cumprirá sua promessa.
No entanto, esse dia nunca chega. Walala, agora com 15 anos, sobe o morro no centro da floresta para, mais uma vez, observar os imensos campos de soja e os tratores autônomos trabalhando. Lá, ela desenha um mapa, tendo o pôr do sol como referência, uma ligação com a memória do último dia em que viu a sua mãe.
Nanã, também dez anos mais velha, se aproxima lentamente do cume do morro. Ela observa Walala com preocupação, percebe que a menina está traçando planos. Enquanto observa o horizonte, narra para Walala os ensinamentos dos seus ancestrais, ressaltando: não existe nada além do deserto de soja e não há outros humanos além do seu povo, um povo que sempre viveu naquela floresta e teria continuado a viver se não tivessem cedido à tentação de sair, como Ticunë fez.
Usando toda sua autoridade e sabedoria, ela proíbe Walala de deixar a floresta e crava uma dura verdade no coração da neta: Ticunë não vai mais voltar. Walala, furiosa, se recusa a aceitar isso. A jovem está certa de que Ticunë está perdida no deserto de soja e está determinada a encontrá-la. O confronto entre avó e neta se intensifica. Elas brigam e Walala se tranca em sua oficina.
Uma horda de drones se acumula ao redor da oficina. Podemos ver como são muitas as pequenas máquinas — milhares delas. Observamos o ponto de vista do único drone no interior da oficina, agora há uma novidade na imagem que a sua câmera exibe: o rosto do seu piloto aparece em um pequeno quadrado no canto da tela, como uma webcam — é Amine.
Em seu luxuoso quarto, altamente tecnológico, sentado em uma cadeira flutuante, cercado por telas de última geração e merchandising com o rosto de Walala, Amine — também 10 anos mais velho — conjectura sobre o que Walala está construindo, acreditando que ela está criando algo semelhante à moto voadora de sua mãe.
Sua câmera de reação se junta a um mosaico de outros pilotos, compondo a plataforma do jogo que recebeu o nome de Savages of Matto Grosso. Apenas os pilotos que conseguem permanecer mais tempo “vivos” dentro da floresta aparecem em destaque no mosaico, os demais apenas assistem.
Amine ostenta o centro do mosaico, ele é também o mais curtido e comentado, pois, além de mais ser o mais antigo jogador, é também o único amigo da estrela do jogo. Dentro da oficina, Walala finaliza a interligação de várias baterias de drones, conectando-as a uma máquina com pequenos propulsores acoplados a uma plataforma de madeira — uma prancha voadora.
Ela ativa o equipamento e sobe na prancha, que começa a flutuar, mas logo perde estabilidade. A prancha oscila, derruba prateleiras, abre uma brecha na palha da oca e cai. Coberta por entulho, Walala se recompõe, limpa o rosto e, ao se levantar, vê os drones invadindo seu espaço sagrado.
Possessa de raiva, ela destrói os drones usando todos os seus artefatos de caça, numa demonstração divertida de extrema habilidade. Do outro lado da tela, os espectadores do mundo inteiro vão ao delírio, assistindo às cenas de ação em telões de bares, parques temáticos e até mesmo em hologramas no meio da rua.
Amine é o único drone que restou, ele ri dos pilotos derrotados e manda que eles entrem na fila, pois, quem sabe, dali um ano ou dois, eles tenham a chance de pilotar novamente dentro da floresta.
Walala olha ao redor, observando o caos resultante de sua explosão de fúria. Com calma, começa a coletar os restos dos drones abatidos e a arrumar sua oficina. Nanã, atraída pela barulheira, entra na oficina. Ao ver o que Walala está terminando de construir, Nanã entende que não adianta mais tentar dissuadi-la.
À margem da plantação de soja, Nanã observa a neta montada na prancha voadora, prestes a seguir o mesmo caminho de sua filha. A prancha voadora de Walala atravessa o vasto deserto de soja, seguida pelo drone companheiro. O sol escaldante torna a travessia ainda mais desafiadora. Imensos drones aspersores de veneno aparecem no horizonte. Walala se defende do líquido químico que eles pulverizam vestindo uma máscara de gás, e segue viagem sem hesitar.
Com o cair da noite, Walala faz uma pausa e consulta seu pequeno mapa. Ela ajusta a propulsão de sua prancha para subir verticalmente alguns metros. Do alto, Walala avista, a alguns quilômetros de distância, uma formação rochosa avermelhada que até então não havia notado. Ela marca a formação no mapa e faz uma guinada para lá.
Chegando às imponentes paredes de pedra, Walala sente uma renovada esperança ao encontrar evidências de outros humanos que passaram por ali antes dela. Fascinada, ela monta acampamento na caverna, sempre observada pelo drone de Amine. Walala adormece.
Na internet, os jogadores discutem sobre o motivo da aventura de Walala, assistidos por milhões de espectadores. Um dos pilotos menciona uma teoria da conspiração sobre o desaparecimento de Ticunë, anos atrás, e deixa Amine visivelmente nervoso. Seu celular toca: é Soroya.
Ele desliga a live no jogo e atende. A dona da fazenda, preocupada, o acusa de não estar cumprindo sua parte no acordo. Ele aponta para ela os números recordes de faturamento do jogo, observando que o preço do ingresso subiu absurdamente agora que Walala está mais rebelde. Contudo, ela teme que Walala encontre sua mansão. Amine, a tranquiliza, garante que tem tudo sob controle e que desviará o caminho de Walala quando for a hora.
De manhã, Walala é acordada pelo som de gotas caindo do lado de fora da caverna. No céu, uma frota de drones aspersores borrifa uma nuvem espessa de líquido branco. Essas máquinas, maiores e mais imponentes do que qualquer drone que já vimos, rapidamente preenchem o céu com a densa névoa.
Walala junta seus pertences, monta em sua prancha voadora e retoma a jornada. No horizonte, mais frotas surgem, uma após a outra, criando camadas de nuvens que obscurecem completamente o céu azul. Walala sente um calafrio. O chat do jogo se enche de mensagens de pessoas que estão torcendo por Walala.
De repente, uma forte rajada de vento atinge a prancha frontalmente, fazendo-a perder estabilidade e se chocar contra o solo. Walala se levanta, sacudindo a poeira. Sua prancha sobreviveu ao impacto, mas duas hélices foram danificadas. Walala olha para o drone de Amine, ele possui as mesmas hélices que ela precisa para seguir viagem. Amine entende o que ela está pensando, o público também, mas ela não tem coragem de sacrificar o amigo.
Enquanto ela faz um reparo improvisado, não percebe que, acima de si, está se formando uma enorme tempestade. Corajosa e sem pensar em desistir, Walala retorna à prancha, que está mais instável e lenta, com as hélices faltantes.
Amine, através de imagens de satélite, monitora o deslocamento de Walala pelo campo de soja. Ele percebe que ela ainda está seguindo na direção da mansão de Soroya. Preocupado, ele manipula as telas de comando das máquinas da fazenda e intensifica os efeitos climáticos que está criando artificialmente.
No horizonte, Walala vê enormes formas brancas em movimento, refletindo os clarões dos relâmpagos. São gigantescas colheitadeiras autônomas, verdadeiras montanhas ambulantes. Walala tenta contorná-las para evitar ser esmagada, mas, à medida que se move, mais colheitadeiras aparecem, formando uma fileira interminável. Determinada a não voltar atrás, ela deita na prancha e acelera.
Mas não é suficiente. Walala é forçada a fazer meia-volta para se afastar das colheitadeiras. Devido ao esforço excessivo, sua prancha falha, despencando no meio da plantação de soja. Atordoada pela queda, Walala mal consegue reagir à aproximação das colheitadeiras e é atropelada por uma delas!
Após sua passagem, tudo o que resta são os destroços da prancha voadora. Não há sinal de Walala. Amine observa a cena por uma imagem feita pela câmera na colheitadeira. Ele tem o olhar frio, diferente do habitual.
Na margem da floresta, Nanã observa a aproximação de um trator solitário. Um pressentimento sombrio a invade, ela teme que a máquina esteja ali para destruir a floresta. Nanã pede forças à sua borduna e assume posição de ataque. No entanto, o trator para diante dela e abre sua enorme boca, revelando Walala deitada em seu interior. Nanã entra na baleia metálica, resgata sua neta e a carrega para a oca.
De volta à segurança da floresta, Walala desperta em sua rede, confusa com o que aconteceu. Nanã, aliviada, a acolhe com uma tigela de mingau, seu antigo prato favorito. Fisicamente, Walala está bem, mas Nanã percebe que algo em seu espírito está quebrado. A jovem, antes rebelde e cheia de energia, agora se recusa a caçar drones e passa o dia obedecendo mecanicamente a todas as suas ordens.
Ao final do dia, Nanã sugere subir o morro, conforme o hábito de Walala, mas a adolescente recusa o convite. De volta à oca, Nanã tenta descobrir o que aconteceu durante sua travessia. Sem entusiasmo, a garota conta que encontrou a caverna com as pinturas rupestres, mas ela estava vazia. Nanã fica surpresa e feliz por saber que o cemitério tradicional de seu povo ainda está lá. Walala pede desculpas à avó por tê-la desobedecido. Resignada, ela promete nunca mais sair da floresta.
Nanã sente o peso da promessa de Walala. Anos tentando convencer a neta a desistir da perigosa busca e, agora que conseguiu, percebe quão devastadora é essa decisão. Nanã se dá conta de que talvez tenha ido longe demais.
No mosaico do jogo, a opinião unânime: o jogo perdeu a graça. Sem a resistência de Walala às fotos, a adrenalina da caçada desapareceu. Além disso, a ausência de Amine se tornou um fator notável. Seu drone não está mais presente, mas sua tela ainda ocupa o centro do mosaico, exibindo uma imagem fixa, offline. Sem aviso, no entanto, seu drone reaparece e se junta aos demais.
Os jogadores imediatamente questionam seu retorno. Eles viram seu drone ser arrastado pela tempestade e, segundo as regras, ele deveria recomeçar do final da fila e esperar por sua vez de decolar novamente, como qualquer outro. A acusação de favorecimento surge rapidamente. Amine tenta se defender, alegando que sobreviveu à tempestade, mas não consegue explicar como.
Nesse momento, Walala sai da oca para buscar lenha e, sem hesitação, ignora completamente o drone de Amine. A reação dos demais jogadores é imediata: risos e comentários sarcásticos. Pela primeira vez, Walala não reage à sua presença. Amine sente sua fala e o próprio futuro do jogo ameaçados.
Os dias passam e Walala continua a mesma: derrotada, obediente e silenciosa. Nanã, em uma tentativa de reviver a antiga energia da neta, conta histórias sobre Ticunë, que antes enchiam Walala de entusiasmo, mas agora não surtem efeito algum. Ela persiste e convida Walala para subir o morro mais uma vez, mas o convite é novamente recusado. Nanã então sobe no morro sozinha.
Ao alcançar o topo, Nanã é acometida por um mal súbito. Visões de Ticunë surgem diante de seus olhos, o arrependimento por não ter resolvido sua relação com Walala a assola. A noite avança, o vento frio castiga sua pele e ela sente a proximidade do desfecho inevitável. Mas, de repente, Walala, guiada pelo drone de Amine, aparece no topo do morro, preocupada com a ausência da avó.
Walala cuida de Nanã e, sob a luz da lua, Nanã decide revelar toda a verdade à neta. Sob o olhar e os ouvidos de diversos drones, ela explica que existe um mundo perigoso, mas cheio de vida, fora da floresta, e que Walala precisa descobrir esse mundo, tanto para dar continuidade ao seu povo quanto para encontrar Ticunë, pois Nanã sentiu que a filha ainda está viva — elas precisam sair da floresta!
As duas retornam para a oca. Nanã sabe que sair da floresta não será simples. Ela percebeu que as coisas mudaram: a fazenda, que antes queria tirá-las de lá a todo custo, agora está empenhada em mantê-las presas. As pessoas que controlam a fazenda querem que sua tradição termine ali, diz Nanã, e cabe a elas impedir isso.
Nanã e Walala traçam um plano. Ela sobem o morro carregando uma caixa metálica. Do alto, Nanã observa os drones aspersores se aproximando, pulverizando seus líquidos tóxicos. Ela entrega à neta uma máscara. Walala se prepara e abre a caixa metálica, pronta para o próximo passo.
Quando os drones aspersores estão próximos o suficiente, Nanã dá o comando. Walala, calçando potentes jatos propulsores, salta do morro e voa em direção às aeronaves aspersoras. Amine, que vem observando cada movimento de Walala, dá um comando urgente para os drones aspersores realizarem manobras evasivas.
Walala vê os drones se distanciarem rapidamente. Seus propulsores não têm força suficiente para persegui-los. Determinada, ela saca seu arco e dispara um dardo atado a um cabo feito de fios elétricos. O tiro atinge em cheio um dos drones, prendendo-se firmemente à sua lataria. Os propulsores de Walala falham, mas, pendurada pelo cabo, ela se mantém no ar, enquanto o drone tenta se livrar dela. Milhões de espectadores ao redor do mundo assistem, boquiabertos, à cena.
Com grande esforço, Walala escala até o drone aspersor em pleno voo. Uma vez em cima dele, ela rapidamente abre sua carenagem e faz uma avaria precisa no sistema, causando um vazamento e a perda progressiva da potência dos motores. O drone desce desgovernado em direção ao solo, mas Walala o cavalga como uma amazona e consegue aterrar a máquina, quase intacta. Do alto do morro, Nanã, que assistia à cena com tensão, vibra com o sucesso da primeira parte do plano.
No meio da plantação, Walala desmonta algumas peças da enorme máquina voadora e retorna para sua oficina com os espólios da caçada. Sob o olhar atento do drone de Amine, ela começa a montagem de uma nova máquina voadora — maior e mais potente. Desta vez, o design lembra uma canoa.
Nanã chega carregando mantimentos empacotados em cestos de palha. Quando percebe que o drone 02 está observando tudo atentamente, ela o apanha e prende dentro de um balaio fechado. Nanã declara: sacrifícios devem ser feitos. Walala sente o peso do que está por vir, mas não se opõe. Do lado de fora, os jogadores circundam a oficina. A tensão cresce: algo grande está para acontecer.
Enquanto isso, Soroya acorda em sua cama tecnológica, o cilindro de criogenia. Ela caminha até uma sala repleta de troféus de caça e relíquias, como armas de fogo e artefatos de etnias indígenas do mundo todo. Nesta sala também estão seus controles e telas de monitoramento de toda a atividade da fazenda: seu escritório.
Amine aterrissa seu luxuoso drone tripulado no gramado da mansão de Soroya. Enquanto espera, Soroya lança um olhar profundo ao interior de uma câmara criogênica cilíndrica, idêntica à sua, que repousa em um lugar de destaque no centro da sua sala de troféus.
O encontro entre Amine e Soroya tem uma pauta óbvia e tensa: o plano de fuga de Walala e Nanã. Amine aponta que a nova fuga está atraindo uma audiência recorde para o jogo, o que, aos olhos dele, é uma enorme vantagem. No entanto, Soroya não está tranquila e se revela arrependida de ter aceitado a proposta de Amine. Para ela, Walala é um risco constante e uma ameaça aos seus interesses maiores.
Nanã remove o drone de Amine de dentro do balaio, chamando a atenção dele e de Soroya, que imediatamente se focam numa tela que mostra o ponto de vista do drone, dentro da oficina. A canoa voadora de Walala está pronta: equipada com imensas turbinas, numerosas baterias, mantimentos e até um cockpit feito de fuselagem de drones e palha.
Walala posiciona o drone de Amine na proa da canoa, como uma carranca, com sua lente voltada para frente. Antes de ser fixado, Amine vê Nanã embarcando, sem seguida, o drone ouve Walala subir a bordo e acionar as turbinas.
As enormes hélices começam a girar, produzindo um zumbido ensurdecedor. Voando do lado de fora da oca, os jogadores ficam em polvorosa. A hora tão esperada finalmente chegou. As palhas da oficina começam a voar para todos os lados, cedendo à força do turbilhão criado no interior. Todos se entusiasmam ao ver a canoa rasgar o telhado da oca, emergir acima do dossel da floresta e partir em alta velocidade rumo ao deserto de soja.
Os drones tentam segui-la, mas a canoa é muito mais rápida e se afasta cada vez mais. Amine sente-se dividido entre a emoção contagiante da aventura e o medo de ter seu pacto com Soroya quebrado.
Os drones do jogo ficam para trás rapidamente, perdidos na imensidão da plantação de soja. Soroya, desconfiada, ordena que Amine direcione uma linha de colheitadeiras para bloquear o caminho da canoa. Amine, apreensivo, obedece e, após alguns cliques, máquinas distantes fazem uma guinada em direção à canoa.
A canoa avança como um relâmpago. Amine repensa, não consegue se conter e pede permissão para desviar as colheitadeiras, temendo pela segurança das indígenas. Mas Soroya responde negativamente e adiciona que percebeu algo estranho no comportamento das indígenas, pois, quando Walala saiu da primeira vez, ela viajou em direção ao pôr do sol, por que agora ela estaria indo na direção oposta?
Amine acha que elas devem estar indo para a cidade, mas Soroya ordena que ele mantenha a rota das colheitadeiras. O conflito entre os dois se intensifica. Amine a confronta, trazendo à tona o acidente de Ticunë e questionando suas verdadeiras intenções. Soroya trata ele com o desdém que de uma patroa arrogante.
A tensão chega ao ápice. Amine desvia as colheitadeiras e pede para Soroya deixar as duas fugirem para a cidade, que depois ela pode destruir a floresta e plantar soja, pois ele está disposto a desistir do jogo. Mas Soroya não está disposta a negociar, ela usa sua senha mestra e tira o acesso de Amine aos controles de tratores, encerrando a disputa.
A colisão é inevitável. A canoa voadora se choca contra uma das máquinas e explode em um clarão. O drone de Amine é obliterado. Amine assiste a tudo, atônito e impotente. Ele chama Soroya de criminosa e diz que vai denunciar o que aconteceu com Ticunë, custe o que custar.
Mas ela permanece tranquila, afinal, após tanto tempo calado e tendo ganhado tanto dinheiro e fama com a exploração de Walala, quem acreditaria nele? Com indiferença, ela o demite e o deixa sem dar mais explicações. Amine, derrotado, fica estático, avaliando o dilema em que está envolvido. Atrás dele, no centro da sala de troféus, o cilindro misterioso acende, chamando sua atenção.
De volta à oficina, Walala e Nanã saem de dentro de grandes balaios de palha onde estavam escondidas. Em seguida, na margem da floresta, o sol se põe enquanto Nanã, com olhar profundo e nostálgico, observa seu lar pela última vez. Walala a aguarda em sua velha prancha voadora, que também recebeu incrementos. As duas disparam rumo ao horizonte.
Noite alta em meio à plantação de soja, Walala e Nanã avistam a antiga formação de rochas avermelhadas. Nanã aponta para lá. Walala faz uma curva em direção às rochas.
No topo da pedra mais alta, sob a luz rubra do pôr do sol, Nanã explica que a neta precisa seguir sua jornada. Walala reluta, pois não se sente preparada para enfrentar o mundo sozinha. Contudo, o destino de Nanã é ficar ali, onde tantos ancestrais seus fizeram sua última morada. Nanã entrega para Walala sua borduna, reforçando sua confiança na bravura e inteligência da neta. Walala compreende o seu destino e chora.
Os drones do jogo finalmente chegam aos destroços da canoa, retorcida entre as ferragens da colheitadeira. O clima na plataforma do jogo é de tensão e preocupação. O que terá acontecido com Walala e Nanã? Os jogadores analisam cada detalhe dos destroços, dando por certo o final trágico de Walala e sua avó.
É noite na caverna das pinturas rupestres. A única fonte de luz provém de uma pequena fogueira. De repente, o brilho intenso dos faróis do luxuosíssimo drone de Soroya preenche a cavidade. Ela desembarca, uma figura alienígena e deslocada naquele cenário ancestral.
Sentada junto ao fogo, Nanã, sozinha, a aguarda pacientemente.
As duas anciãs se reencontram, seus olhares cheios de passado e tensão. Elas iniciam um diálogo profundo, enquanto as pinturas rupestres, em vermelho, amarelo e preto, cravadas na rocha ao redor, ilustram cada etapa da conversa que se segue:
Soroya quer saber por que Nanã decidiu deixar a floresta. De forma natural ela responde que seu povo, nômade, por milênios andou nas terras onde Soroya agora planta soja. Soroya sabe bem disso. Ela conheceu os antepassados de Nanã, não apenas seus pais e avós, mas também seus bisavós e tataravós. Soroya é muito mais velha do que parece.
Nanã lembra que, no curso da sua longeva trajetória, Soroya derrubou muitas árvores e moradas, até que restasse uma última floresta e que, só após muita luta e tentativas de expulsão, Ticunë e Nanã conseguiram garantir que a floresta ficasse em pé, mas tiveram que sacrificar sua tradição e fixar a morada de seu povo.
As ilustrações mostram a luta de Ticunë contra tratores e depois chegam ao fim.
Soroya parece tocada pelas palavras de Nanã. Ela afirma que aprendeu a valorizar a tradição do povo dela, até aprendeu a falar sua língua. No entanto, a dona da fazenda questiona a continuidade dessa tradição. Ela nota que Nanã está próxima do fim e compara seu povo a civilizações extintas, como os Vikings e os Apaches — culturas ricas, mas que agora são apenas lembranças.
Ofendida, Nanã responde com firmeza: "Enquanto Walala viver, nossa tradição vive com ela!". No entanto, Soroya tem um argumento final e lança uma questão dolorosa: será que Walala, uma mestiça — filha de Ticunë com alguém que não faz parte de seu povo — pode ser considerada verdadeiramente indígena?
Nanã prefere não responder a um argumento tão vil. Só então Soroya nota a ausência de Walala. Ela sai da caverna, procurando a menina, e percebe que o sol já está raiando. Não há sinal de Walala nas redondezas.
Soroya volta para o interior da caverna em busca de Nanã, mas não a encontra. Em seu lugar, encontra uma nova pintura rupestre, que mostra uma menina se aproximando de um grande casarão cercado por uma floresta de eucaliptos.
Sozinha na caverna, Soroya sente o peso daquele lugar. Ela percebe que, talvez, o controle que pensava ter sobre a situação não seja tão absoluto quanto imaginava.
Enquanto isso, Walala se aproxima da mansão que é sede da Fazenda Modelo, em sua mão, a borduna de Nanã. Ela aterrissa próximo aos eucaliptos que cercam a mansão. Antes de continuar, Walala toca a testa na borduna, pedindo forças, como sua avó fazia. Com coragem renovada, ela adentra o território desconhecido.
Walala avança pela falsa floresta. As toras lançadas do alto pelos robôs lenhadores quase a atingem. Walala escapa e chega a um pomar, onde robôs coletores a confundem com um animal invasor e a perseguem. Ela luta contra eles, deixando um rastro de destruição. Mais próxima à casa, Walala enfrenta os drones de segurança que parecem grandes cães de guarda, mas nenhum deles consegue impedir seu avanço até o interior da mansão.
Os cômodos da mansão colonial são opressores. Seus longos corredores, adornados com armas antigas e animais empalhados, parecem um museu da prática de caça. Walala avança, sempre alerta a qualquer som. Vendo um brilho azul dentro de uma das salas, ela se esgueira e se aproxima.
É a sala de troféus, que está iluminada apenas por uma fraca luz azul que emana do cilindro de criogenia. Seu coração acelera e um arrepio sobe sua espinha. Ao entrar na sala, ela percebe que há alguém de costas, observando a câmara.
Amine não nota a aproximação de Walala. Com o olhar perdido, ele observa o interior da câmara criogênica. Walala, com a borduna levantada, ordena que ele se vire lentamente. Ele entende sua língua, mas parece não acreditar que está na presença de Walala.
Ela pergunta quem ele é. Ele demora a responder, pensando: por onde começar a explicar tantas mentiras? Amine se emociona e engasga as palavras. Ela insiste e ele começa pedindo desculpas, repetidamente, e chora. Ela estranha aquela reação tão emotiva. Abaixa sua borduna e se aproxima dele, levantando seu queixo num gesto de acolhimento. Ele finalmente consegue falar: ele é o drone que ela teve como amigo por tantos anos.
Ela não entende o que aquilo quer dizer e ele explica que por trás de cada uma daquelas pequenas máquinas existem pessoas como ele, observando cada passo que ela dá, com admiração e respeito. Ela pergunta se a mãe dela também está dentro de uma daquelas máquinas. Ele engasga com as palavras mais uma vez, dá um passo atrás e mostra o cilindro para ela: “Sua mãe está aqui".
Walala sente lhe faltar o chão e se apoia na borduna de sua avó. Ela sente Nanã lhe tocar a mão e ganha forças. Dentro do cilindro, algo se agita. Walala se aproxima e reconhece o rosto no interior da câmara: é mesmo a sua mãe!
Com a voz trêmula, ela pergunta o que aconteceu com Ticunë. Amine, incapaz de continuar mentindo e revela a verdade: Ticunë foi atingida quando veio buscar remédio, muitos anos atrás, e agora está presa dentro daquela máquina. Walala não consegue entender o que isso significa e, desesperada, pergunta: "Minha mãe está morta!?"
Amine balança a cabeça negativamente. "Abre isso", exige Walala, indicando a câmara criogênica — a emoção transbordando em seu rosto. Amine, receoso, responde que não pode abrir, pois isso significaria a morte de Ticunë.
Então, todas as telas de comando e monitoramento se acendem dentro da sala de troféus. Os monitores que comandam os tratores, drones aspersores, colheitadeiras e todas as demais máquinas da fazenda apontam que elas estão sendo direcionadas para o mesmo lugar: a floresta!
No centro das telas surge a imagem de Soroya que, de dentro do seu drone tripulado, cumprimenta sarcasticamente Amine e Walala. Visivelmente transtornada, ela sabe que chegou o momento inevitável. Ela afirma que admira a coragem e a história do povo de Ticunë, mas tudo tem um fim e esse fim chegou. Amine entende o que está acontecendo, ela está indo derrubar a floresta. Ele tenta alterar a rota das máquinas, mas os controles não respondem aos seus comandos.
A última imagem que vemos de Soroya é ela acoplando seu drone tripulado a um imenso trator de devastação, uma máquina hiper-tecnológica, porém com uma característica antiga: uma cabine, onde Soroya se senta e assume a direção.
Walala permanece mergulhada no olhar de sua mãe. Ela tenta conversar com Ticunë enquanto Amine apanha uma arma da parede e dispara contra a central de comando de máquinas. Walala se assusta. Todas as luzes da sala se apagam com o curto circuito gerado pelo disparo. Porém, um tablet em cima da mesa mostra que as máquinas permanecem no seu curso de destruição.
A câmara criogênica também se desliga, sua porta perde a pressão e emite um chiado. Ticunë desperta de seu coma induzido, fraca e confusa. Sua voz emana dentro da câmera, como se viesse de um sonho. Walala se aproxima e abre a porta por completo. Ticunë reconhece a filha e avisa: temos pouco tempo. Walala pede para ela não ir embora, mas Ticunë diz que seu lugar é ao lado de Nanã e que o lugar de Walala é de volta à floresta, defendendo o legado de seu povo.
Ticunë urge: "Corre, filha, a floresta precisa de você!"
Amine percebe que Walala está determinada a voltar e a coloca em seu drone de transporte. Ele fica na sede da fazenda, para continuar tentando desativar os tratores.
Dentro da aeronave, Walala vê os tratores se aproximando da sua floresta. O drone aterrissa no centro da aldeia. Walala corre para sua oficina e se prepara para a batalha final. Ela aproveita o tempo que tem para criar uma nova armadura feita de partes de drones e recursos da floresta, mais forte e equipada, depois ela adorna seu rosto e sua borduna.
Pronta para a guerra, Walala, de cima do morro, olha através da luneta que era de sua mãe e vê o exército de máquinas liderado por Soroya se aproximando. O desequilíbrio de forças é esmagador, mas Walala não se acovarda. Atrás dela se alinham os espectros de seus antepassados, incluindo Ticunë e Nanã. Ela salta do morro em direção à batalha!
Voando em direção aos drones aspersores — os ponteiros no ataque — ela aterrissa sobre um deles, destruindo uma de suas hélices e lançando-o diretamente contra um trator menor que está no solo — as duas máquinas explodem.
Walala plana até outro drone aspersor, pousa sobre ele e lança um cabo em um drone vizinho, criando uma linha que liga os dois. Depois, corre pelo cabo até a metade de seu comprimento e, usando os poderosos propulsores de sua armadura, desvia o curso de voo de ambos os drones, fazendo-os colidir com o restante da frota que vem logo atrás deles.
Ela salta instantes antes do impacto e pousa sobre um trator de poda, que já está cortando uma árvore da margem da floresta. Walala corta sua carenagem e entra dentro da imensa máquina, apenas para emergir segundos depois, deixando o trator inerte. Ela então olha para o cenário da guerra. Conseguiu deter os dois tratores mais próximos, mas uma infinidade de outras máquinas preenche o horizonte.
Quanto aos drones aspersores, muitos outros já chegaram à floresta e estão expelindo agrotóxicos de ação rápida sobre a mata, fazendo as folhas das árvores murcharem. Walala grita de raiva e se lança novamente contra eles. Do alto, ela consegue ver que eles estão ali às centenas… parece uma luta perdida, mas ela não vai desistir.
Walala aterrissa sobre o morro e pensa num plano. Quando ouve um zumbido de esperança. Ela olha para trás e vê os milhares de drones do jogo retornando da incursão que fizeram na soja — para acompanhar a canoa voadora que se estilhaçou.
No mosaico do jogo, todos os pilotos vibram ao ver Walala vestida em sua nova armadura. Há um sentimento de união, alguns pilotos percebem os drones aspersores destruindo a floresta e decidem lutar ao lado de Walala. Ela, por sua vez, os olha sem saber se serão seus aliados na luta, mas assim que o primeiro deles derruba um drone aspersor, sacrificando-se ao entrar no meio de suas hélices, ela percebe que os pequenos drones estão ao seu lado!
Mais drones do jogo entram no modo kamikaze, se chocando contra as hélices e câmeras dos drones aspersores. Walala salta novamente e continua a batalha, eliminando os drones aspersores inimigos com ataques de sua borduna. Contudo, no horizonte, Soroya e o batalhão de tratores estão cada vez mais próximos.
Enquanto isso, na sede da fazenda, Amine tenta diversas senhas no tablet de Soroya: "agro é top"; "agro é tudo"; "vida eterna"... mas não consegue destravá-lo. Ele desiste e começa a revirar o escritório em busca de uma pista.
Na floresta, Walala e os drones do jogo estão vencendo a batalha contra os drones aspersores, mas muitas árvores da floresta já foram borrifadas com agrotóxicos e estão murchando. Para piorar, a primeira leva de tratores de poda chega ao lado oposto da floresta, Walala ouve o som das árvores caindo. Ela deixa o campo de batalha dos drones e corre para tentar parar a derrubada.
Do outro lado da floresta, a luta é intensa e perigosa, as lâminas de poda e as grandes toras de madeira colocam a vida de Walala em risco várias vezes, mas ela consegue parar os tratores, inutilizando suas esteiras, colocando uns contra os outros e destruindo suas centrais de comando. Porém, a guerra não lhe dá trégua, pois outro batalhão se aproxima da floresta… as colheitadeiras, lideradas por Soroya. Walala pede forças à mata.
Soroya chega à floresta, pilotando seu trator que mais parece um encouraçado de guerra. Ela aciona um comando que eleva as esteiras do seu trator, transformando-o em uma máquina bípede, que ela usa para pisotear a floresta. Passando diretamente por cima de Walala, ele se dirige para o centro da mata, onde desponta o morro.
Walala nota sua intenção, mas a luta contra as colheitadeiras está muito intensa. Apesar dessas máquinas pesadas não terem muitos recursos, seu simples peso empurrando mata adentro é o suficiente para causar enorme estrago. Walala tem dificuldades para romper sua carenagem reforçada.
Por uma imagem aérea, vemos mais e mais colheitadeiras chegando à floresta, por todos os lados. Essa imagem está no tablet de Soroya. Amine se desespera com a cena e com sua impotência. Ele está derrotado, já tentou de tudo e não conseguiu acessar o sistema de segurança. Pelas câmeras dos tratores, ele assiste à luta de Walala, que acaba de ser ferida por uma colheitadeira!
Walala cai, clama a ajuda de seus ancestrais. A floresta está sendo consumida. Partes dela estão pegando fogo. Soroya está no topo do morro, conclamando a conquista do território.
Os últimos drones do jogo filmam seu rosto dentro do trator de devastação, mas ela não se importa mais com a opinião pública ou as consequências futuras de seus atos, seu ódio pela floresta a deixou cega, é uma questão pessoal e ela não vai parar enquanto não ver a última árvore no chão!
Amine não tem mais recursos, até que… Ticunë fala algo. Amine não ouve. Ela repete. Amine nota que ela está tentando se comunicar e se aproxima. Chega bem próximo dela. Ticunë sussurra em seu ouvido.
Walala continua caída, ela pede desculpas à sua mãe, à sua avó, por ter falhado em proteger a floresta e sua tradição. Uma colheitadeira desgovernada avança sobre ela, sua esteira enorme, indiferente a árvores, pedras e partes de outras máquinas, arrasta e oblitera tudo em seu caminho… e o próximo “obstáculo” é Walala.
A colheitadeira pára a centímetros da nossa heroína. Walala parece não acreditar. Todas as colheitadeiras e tratores pararam. Soroya, em cima do morro, também está em choque, seu trator é a única máquina que ainda se move. Incrédula, ela olha seu exército desativado. Na mansão, Ticunë tem os olhos fechados e agora realmente descansa. Amine, aliviado, tem diante de si o tablet onde foi inserida a senha de desativação: Ticunë.
Walala se levanta, mas seu alívio dura pouco, pois nota que o robô de Soroya permanece no cume do morro. Soroya, furiosa, grita que não adianta mais tentar salvar a floresta, pois ela mesma vai terminar de destruir tudo. Diz isso e começa a incinerar os arredores, arremessando bolas de fogo do alto da montanha.
Walala corre em direção ao morro, escapando das diversas bombas de fogo. Ela chega até o topo, luta contra o robô de Soroya, em uma batalha de Davi contra Golias, e consegue derrubar a imensa máquina do alto da queda d’água. Walala salta em cima da cabine, em pleno ar, e retira Soroya de dentro do robô, salvando sua algoz da morte certa. O trator de devastação explode ao atingir o solo.
Em seguida, os drones aspersores, comandados por Amine, se aproximam e pulverizam água sobre as chamas, extinguindo os incêndios. Finalmente, Walala pode respirar e contemplar sua vitória. Contudo, sem que ela perceba, atrás de si surge o luxuoso drone de Soroya, descendo do céu sobre sua dona. Walala tenta impedir que ele resgate a fazendeira, mas o drone é mais rápido e foge, levando Soroya consigo.
Dias depois… na antiga formação de rocha vermelha, uma nova pintura rupestre cobre a parede e dá continuidade à história do povo de Walala. Nela, uma legião de pessoas, vindas dos quatro cantos do mundo, marcha em direção à floresta.
Um drone pintado com as cores de Walala sobrevoa uma fila de milhares de pessoas que cruza o deserto de soja. São ex-jogadores indo em direção à floresta. A multidão é uma amostra vibrante da diversidade humana, gente de todas as partes do planeta, muitas carregando traços de povos originários há muito considerados extintos.
Walala, de pé no topo do morro, no centro da floresta, observa a multidão que não para de chegar. Ao seu lado, Amine, orgulhoso em sua cadeira de rodas, assiste a tudo em silêncio. Juntos, eles observam as máquinas da fazenda trabalhando na reversão da monocultura, plantando árvores onde antes havia apenas desolação.
Ninguém sabe o paradeiro de Soroya, mas Walala não tem dúvidas: a batalha pela floresta está longe de acabar.